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Artrite reumatoide: sintomas, diagnóstico e o que mudou no tratamento

Sua mão dói quando você acorda, e a dor só melhora depois de meia hora? Esse é o sintoma que mais manda paciente para o reumatologista — e quando o diagnóstico é artrite reumatoide, quanto mais cedo a avaliação, melhor o prognóstico. O paradigma atual do tratamento é que os primeiros 12 meses definem boa parte do que vai acontecer nos próximos 30 anos. O que é artrite reumatoide Artrite reumatoide (AR) é uma doença inflamatória crônica e autoimune. O sistema imune ataca erradamente os tecidos do próprio corpo — especialmente a membrana sinovial, que reveste o interior das articulações. A inflamação persistente destrói cartilagem, osso e tendão. Em quadros não tratados, o dano é permanente. Embora a articulação seja o alvo principal, a AR é doença sistêmica: pode afetar pele, olhos (esclerite), pulmões (doença pulmonar intersticial), coração (risco cardiovascular aumentado) e vasos. O risco de infarto em paciente com AR mal controlada é maior que na população geral — doença reumática bem tratada é também prevenção cardiovascular. No Brasil, a prevalência em adultos é estimada em 0,2% a 1% — cerca de 2 a 10 pessoas em cada mil. Por que acontece A causa não é única, mas em 2026 sabemos bastante sobre os fatores de risco: Sinais que levantam a suspeita Se a soma desses sinais estiver presente, a avaliação não pode esperar. Cada mês de atraso até o início do tratamento aumenta o risco de dano estrutural. {CTA: agendar-avaliacao-artrite} Como faço o diagnóstico Combinação de: Existem critérios formais (ACR/EULAR 2010) que pontuam esses elementos e permitem classificar a doença para fins científicos. Na prática clínica, o reumatologista usa os mesmos dados para fechar diagnóstico e iniciar tratamento. Tratamento: o que mudou O tratamento de AR passou por uma revolução nas últimas duas décadas. O conceito que orienta tudo hoje é o Treat-to-Target (T2T): o acompanhamento é guiado por meta, não por queixa. A meta é remissão clínica (ou baixa atividade de doença em quem já evoluiu). Se a meta não é atingida em 3 a 6 meses, a conduta muda — dose, associação, troca de classe. O arsenal disponível: Metotrexato.Base do tratamento há décadas. Comprimido semanal (oral ou subcutâneo). A maioria dos pacientes começa por aqui. Exige monitoramento de fígado e hemograma. Outros DMARDs sintéticos convencionais.Leflunomida, sulfassalazina, hidroxicloroquina. Usados isolados ou em combinação. DMARDs biológicos (bDMARDs).Entram quando a resposta ao metotrexato é insuficiente. Anti-TNF (adalimumabe, etanercepte, infliximabe, golimumabe, certolizumabe), anti-IL-6 (tocilizumabe, sarilumabe), anti-CD20 (rituximabe), abatacepte. São aplicados por injeção subcutânea ou infusão venosa. DMARDs sintéticos alvo-específicos (tsDMARDs).Inibidores da Janus quinase (JAKinibs) — tofacitinibe, baricitinibe, upadacitinibe. Comprimido via oral, eficácia comparável aos biológicos. Têm perfil próprio de segurança a ser discutido antes do início. Corticoide.Usado em baixa dose como ponte até o DMARD agir, ou em surto. Meta é desmamar em meses, não uso crônico em dose alta. Medidas não-farmacológicas que fazem diferença Tem cura? Cura definitiva, não. Mas a meta realista mudou — não é mais “conviver com a deformidade”, é remissão. Grande parte dos pacientes em tratamento moderno atinge remissão clínica e funcional, com ou sem medicação ativa. Uma minoria consegue sustentar remissão após desmame cuidadoso de DMARD. Nenhum desses cenários é compatível com diagnóstico feito tarde. Acompanhamento No começo, consultas frequentes (a cada 4-12 semanas) com ajuste até atingir a meta. Depois, a cada 3 a 6 meses se estável. Exames de controle ficam atrelados à medicação em uso. {CTA: agendar-consulta-artrite-reumatoide} Leituras relacionadas: {link-interno: reumatismo}, {link-interno: artrose} (para diferença entre artrite e artrose), {link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}.

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Artrose é o mesmo que artrite?

{imagem: radiografia de joelho com sinais de osteoartrite e mão apontando para o espaço articular reduzido; alt-text “Radiografia de joelho com sinais de artrose”} Um paciente chegou outro dia falando “doutor, comecei com artrite no joelho”. Fui examinar e o joelho não tinha sinal inflamatório nenhum. Tinha desgaste de cartilagem, dor aos movimentos, crepitação — tinha artrose. É o erro mais comum de nomenclatura no consultório. Artrite e artrose não são a mesma doença. Parecem palavras parecidas e se confundem no uso popular, mas cada uma descreve um processo biológico diferente, com causa diferente, curso diferente e tratamento diferente. A diferença em uma frase As duas podem coexistir no mesmo paciente. E a artrite não tratada pode evoluir para artrose secundária — mais um motivo para diagnosticar doença inflamatória cedo. O que é artrose A artrose é a doença articular mais comum do mundo. Caracteriza-se pela perda progressiva da cartilagem articular — o tecido liso que reveste a ponta dos ossos dentro da articulação. Sem esse amortecimento, osso raspa em osso, a articulação perde mobilidade, dói. É mais frequente depois dos 50 anos, mas não é doença “só de idoso”. Em torno dos 75 anos, a maioria das pessoas tem algum sinal de artrose em exame de imagem (estudos brasileiros, na linha do que mostra a coorte internacional do Framingham, apontam algo próximo de 85% de alterações radiológicas nessa faixa etária). Nem todos têm sintoma. Por que aparece Sintomas típicos Diagnóstico Na maioria dos casos, é clínico + radiográfico. Tratamento: o que depende de você e o que depende do médico O tratamento moderno segue as diretrizes OARSI e ACR atualizadas em 2019, com pilares bem estabelecidos. O que depende do paciente Exercício físico regular.É a intervenção com melhor evidência — superior a qualquer medicamento isolado. A combinação recomendada é exercício aeróbico de baixo impacto (caminhada, bicicleta, hidroginástica) com treino de resistência (musculação adaptada, elástico, peso do corpo). Frequência: 3 a 5 vezes por semana. {link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}. Perda de peso quando há sobrepeso.O número que muda o curso clínico é redução de ao menos 5% do peso corporal. Em artrose de joelho, perda de 10% do peso tem efeito comparável ao de um medicamento. Fortalecer musculatura ao redor da articulação.Quadríceps forte protege o joelho. Core forte protege a coluna. Fisioterapia orientada é parte do tratamento, não “extra”. Adaptar a rotina.Sapato adequado, uso de palmilha quando indicado, bengala do lado oposto ao joelho acometido (o “erro clássico” é usar do mesmo lado). Acessórios não são fraqueza — são ferramenta de tratamento. O que depende do médico Analgésicos e anti-inflamatórios (AINE), quando indicados: Infiltração intra-articular.Corticoide em infiltração é opção em crise dolorosa, com efeito por semanas a meses. Ácido hialurônico tem evidência mais modesta e varia por articulação. Cirurgia.Artroplastia (prótese) é a solução definitiva para artrose avançada de joelho ou quadril em paciente com dor refratária e perda importante de função. Indicação é tomada em conjunto com o ortopedista. O que não funciona (e que é muito vendido) Quando procurar avaliação Dor articular que dura mais de 6 semanas, rigidez, crepitação, ou perda de amplitude de movimento merecem avaliação. Em artrose, o tratamento começado cedo preserva função por muito mais tempo. {CTA: agendar-avaliacao-artrose} Leituras relacionadas: {link-interno: artrite-reumatoide}, {link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}, {link-interno: reumatismo}.

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Reumatologista em Vitória: como funciona a consulta

{imagem: consultório do Dr. Rafael Emerich com mesa organizada e duas cadeiras para o paciente e acompanhante; alt-text “Consultório do reumatologista Dr. Rafael Emerich em Vitória-ES”} O que o reumatologista trata Reumatologia cuida de doenças que afetam articulações, ossos, músculos, tendões e ligamentos sem origem em trauma direto (nada a ver com entorse ou queda recente, em geral). E cuida também de doenças autoimunes sistêmicas — lúpus, vasculite, esclerose sistêmica, síndrome de Sjögren — que não são “doença de articulação”, mas são do meu território. As condições mais frequentes que atendo: {link-interno: artrose}, {link-interno: fibromialgia}, {link-interno: osteoporose-nao-doi}, {link-interno: artrite-reumatoide}, espondilite anquilosante, gota, tendinopatias crônicas, polimialgia reumática. São mais de 100 doenças que caem na especialidade — o que o clínico geral encaminha como “problema de reumato” raramente é a mesma coisa em dois pacientes. Reumatologista perto de mim Atendo no consultório em Vitória-ES, {endereço-vigente}. O edifício tem elevador e acessibilidade. {link-externo: google-maps-consultorio-direto} {CTA: agendar-consulta} Como é a primeira consulta Dura em média 50 a 60 minutos. Não tenho pressa: a primeira conversa é onde o diagnóstico se forma. Na prática, o que acontece: O que levar na primeira consulta Quem é o médico Rafael Emerich. Médico formado na Universidade Federal Fluminense. Residência de Clínica Médica no Hospital Souza Aguiar (Rio de Janeiro) e residência de Reumatologia no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Título de especialista pela Sociedade Brasileira de Reumatologia / Associação Médica Brasileira — RQE disponível para consulta no CRM-ES. Para ser reconhecido como reumatologista no Brasil, são 4 anos de residência médica depois da faculdade (2 de clínica médica + 2 de reumatologia), ou título pela prova da SBR. Quem atende como “especialista” sem esse caminho está fora da norma. Perguntas que ouço antes da consulta Atende plano de saúde?{link-interno: planos-aceitos} / {CTA: consultar-convenios}. Precisa de encaminhamento?Em plano de saúde, sim, na maioria dos convênios. Em particular, não. Faz telemedicina?Para consulta de retorno, em situações específicas. Primeira consulta é presencial — diagnóstico em reumatologia depende de exame físico. Atende criança?Não. Reumatologia pediátrica é uma subespecialidade com profissional próprio. Se for caso de criança ou adolescente, encaminho. Dói a mão de manhã há duas semanas, é reumatismo?Pode ser muita coisa, inclusive viral sem importância. Sintoma articular com mais de 6 semanas merece avaliação. Avaliações de pacientes {link-externo: google-reviews-consultorio} {CTA: agendar-consulta-particular}{CTA: agendar-consulta-convenio} Se o problema é dor articular com mais de 6 semanas, rigidez matinal prolongada, inchaço sem motivo aparente ou perda de função — vale a avaliação.

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COVID-19 em quem tem doença reumática: vacina, medicação e o que mudou

{imagem: profissional da saúde aplicando dose de reforço em braço de paciente adulto; alt-text “Vacinação de paciente com doença autoimune contra COVID-19”} No começo da pandemia, a conduta que dei aos meus pacientes foi uma. Em 2026, é outra. Vale a pena revisar, porque muita orientação que ficou de 2020 ainda circula e não se sustenta mais. A COVID-19 não é o mesmo problema que era há cinco anos. Imunizantes atualizados, antivirais orais disponíveis no SUS e na rede privada e cinco anos de dados sobre paciente com doença autoimune mudaram o jogo. O que segue abaixo é o que oriento hoje em consultório. Paciente reumático tem mais risco de COVID-19 grave? Depende da doença e da medicação. Paciente com {link-interno: lupus} em atividade, vasculite sistêmica em uso de imunossupressor potente, ou em terapia com corticoide em dose alta (prednisona acima de 10 mg/dia de modo crônico), tem risco aumentado. Paciente com {link-interno: fibromialgia} não entra nesse grupo — a doença em si não compromete a imunidade. Rituximabe é o caso que mais preocupa. Pacientes em uso desse medicamento montam resposta vacinal ruim, e quando infectam podem ter quadros prolongados. Discutir timing da próxima dose antes de vacinar faz diferença. Vacinação: o que está indicado Toda diretriz de sociedade de reumatologia disponível em 2026 recomenda manter o esquema vacinal em dia, incluindo reforços com imunizantes atualizados contra variantes circulantes. A dúvida histórica — “minha doença pode piorar depois da vacina?” — já foi respondida pela literatura: o risco de surto após vacinação é baixo e largamente menor do que o risco do quadro natural. Pontos práticos: Vacinas contra gripe (anual), pneumococo (esquema duplo PCV + PPV nos grupos indicados), herpes-zóster recombinante (para quem vai entrar em imunossupressão significativa) e hepatite B (se suscetível) são parte do mesmo cuidado. Peguei COVID-19. O que faço com meu remédio? A conduta mudou e está mais individualizada. A regra genérica de “suspende tudo durante febre” não é mais a recomendação padrão. O que segue abaixo são princípios gerais. Cada caso é discutido comigo ou com o reumatologista de quem acompanha. Quadro leve (sintomas de resfriado, febre baixa, sem falta de ar): Quadro moderado ou alto risco: E a tal COVID longa? Sintomas prolongados — fadiga persistente, dor difusa, “neblina mental”, dispneia aos esforços — podem aparecer depois de infecção por SARS-CoV-2, em paciente com ou sem doença reumática prévia. No paciente que já tem {link-interno: fibromialgia}, o quadro pós-COVID pode agravar dor e fadiga por meses. Não há tratamento específico com evidência forte. O que funciona no consultório é retorno gradual e supervisionado à atividade física, manejo do sono, e revisão criteriosa da lista de medicamentos (às vezes é o corticoide extra prescrito por outro médico que está piorando o sono e a fadiga). Vacinar é decisão de quem cuida O serviço público e a rede privada oferecem esquema vacinal atualizado. Marque a próxima dose e traga a caderneta na consulta — se eu tiver acesso às suas vacinas, consigo orientar timing com sua medicação. {CTA: agendar-avaliacao-pre-vacinal} Referências de conduta: ACR Guidance for the Management of Rheumatic Disease in Adults During the COVID-19 Pandemic (versões atualizadas em 2024-2025), notas técnicas da Sociedade Brasileira de Reumatologia, {link-externo: sbr.org.br}.

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Exercício físico em quem tem doença reumática: o que funciona e o que é mito

{imagem: pessoa adulta subindo escada de tênis, segurando o corrimão; alt-text “Atividade física regular como parte do tratamento reumatológico”} Em um mesmo mês de consultório, eu ouço: “Meu médico falou que eu não posso fazer atividade física.”“Eu faço exercício no meu trabalho o dia todo!”“Quando começo, piora — aí paro.”“Mas qual é o melhor exercício para a minha doença?” As quatro frases são variações do mesmo medo: o paciente com doença reumática acha que mexer vai piorar. Em quase todos os casos, é o contrário. Atividade física e exercício físico não são a mesma coisa Vale a distinção técnica, porque a confusão atrapalha: Os dois são bons para a saúde. Mas só o exercício físico, na dose certa, tem o efeito terapêutico documentado em doença reumática. Quando eu digo “prescrevo exercício” estou falando do segundo, não do primeiro. Em quase todos os casos, exercício está indicado Em pouquíssimas situações há contraindicação absoluta ao exercício em paciente reumatológico — e mesmo nelas, a contraindicação é temporária, até a doença estar controlada. Os benefícios documentados incluem: Músculo forte + tendão forte = articulação mais estável. Essa fórmula simples resume boa parte do que acontece no consultório. Qual exercício? O melhor exercício é aquele que você consegue fazer com regularidade. Musculação brilhante uma vez por mês serve menos que hidroginástica três vezes por semana. A regularidade é a variável que mais importa. Em segundo lugar vem a combinação de modalidades. A recomendação geral para adulto com doença reumatológica estável: Paciente com artrose de joelho se beneficia mais de aeróbico combinado com resistido para quadríceps. Paciente com fibromialgia responde melhor a aeróbico leve com progressão muito lenta. Paciente com osteoporose precisa incluir carga e impacto, dentro do tolerado. Um plano padronizado serve a pouca gente — individualizar com profissional qualificado é o que traz resultado. {CTA: agendar-avaliacao-pre-exercicio} Quando não começar sem avaliar Fora desses cenários, começar com caminhada regular enquanto aguarda avaliação raramente é errado. “Vou começar devagar e já piorou” Nas primeiras semanas, é possível que a dor piore antes de melhorar. Isso não significa que o exercício está errado — significa que o corpo está se adaptando. A literatura sobre formação de hábito (estudos como o de Lally em 2010) mostra que leva, em média, 2 a 3 meses para o comportamento novo se estabilizar, com variação grande entre pessoas. Dor aguda durante movimento específico é sinal de alerta e merece interrupção. Desconforto muscular difuso após treino, que passa em 24-48h, é normal e esperado. “Já me exercito no meu trabalho” Em raros casos isso é verdade. O pedreiro que carrega peso o dia todo não está ganhando os benefícios do treino de resistência planejado — ele está usando o corpo de modo repetitivo, com risco de lesão. Exercício físico prepara você para o dia a dia do trabalho; não é substituível por ele. Acompanhamento faz diferença Paciente que faz exercício acompanhado por profissional qualificado — educador físico, fisioterapeuta ou personal trainer com experiência em doença crônica — tem resultado melhor do que quem faz sozinho. Não precisa ser caro nem contínuo. Um plano bem feito no início, com revisão a cada 2-3 meses, já muda o jogo. {CTA: agendar-consulta} Leituras relacionadas: {link-interno: artrose}, {link-interno: artrite-reumatoide}, {link-interno: fibromialgia}, {link-interno: osteoporose-nao-doi}.

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Fibromialgia: o que é, como diagnostico e o que funciona no tratamento

{imagem: mulher adulta sentada no sofá segurando a nuca e o ombro, semblante cansado; alt-text “Paciente com dor difusa crônica característica de fibromialgia”} Uma paciente chegou ao consultório com uma pasta de exames normais há quatro anos. Ressonância sem alteração, sangue impecável, reumatologista anterior dizendo “não é nada”. Ela passou esses quatro anos sendo informada de que sua dor era invenção. A dor dela era fibromialgia — e não era invenção. É mais ou menos assim que metade dos meus pacientes de fibromialgia chega ao consultório. Depois de ouvir “é frescura”, “é da cabeça”, “é estresse”. A combinação de exames limpos com dor intensa e difusa cria o mal-entendido. E o mal-entendido atrasa o tratamento. O que é fibromialgia Fibromialgia é uma síndrome de dor crônica difusa, com fadiga, alteração de sono, dificuldade de concentração (“neblina mental”) e sensação de inchaço nas mãos ou nos pés mesmo sem inchaço visível. O mecanismo que hoje explica a doença é a sensibilização central: o sistema nervoso amplifica sinais de dor e reduz sinais inibitórios, de modo que estímulos comuns (toque, pressão leve, mudança de temperatura) são processados como dor. Não é doença inflamatória nem autoimune. Não deforma articulação. Não aparece em exame de sangue, ressonância ou cintilografia. Isso não significa que “não é real” — significa que a doença mora no sistema nervoso, e ainda não existe biomarcador de imagem ou laboratório para ela. Quem tem fibromialgia A fibromialgia afeta cerca de 2% a 4% da população brasileira. É mais comum em mulheres, mas a diferença entre sexos é menor do que parecia nos anos 1990. Com os critérios diagnósticos atuais (ACR 2016), a proporção homem-mulher fica em torno de 1:2 a 1:3, não 1:9 como se dizia antes. A diferença antiga refletia viés de diagnóstico — homens eram sistematicamente menos identificados. O pico de diagnóstico está entre 30 e 50 anos, mas o quadro pode começar em adolescente e em idoso. Há agrupamento familiar — quem tem mãe, irmã ou filha com fibromialgia tem risco aumentado. {CTA: agendar-avaliacao-dor-cronica} Como fecho o diagnóstico O diagnóstico é clínico, usando os critérios da American College of Rheumatology de 2016. A base é: O papel do exame de sangue e de imagem na avaliação é afastar diagnóstico alternativo — hipotireoidismo, anemia, artrite reumatoide em início, espondiloartrite, deficiência grave de vitamina D, polimialgia reumática em paciente acima de 50 anos. Nunca é “o exame que confirma fibromialgia”, porque esse exame não existe. O que funciona no tratamento Tratamento moderno de fibromialgia é multimodal. Nenhuma perna da mesa sustenta o paciente sozinha. Exercício físico.Tem o nível mais alto de evidência que qualquer outra intervenção em fibromialgia — maior inclusive que a de medicamento. Aeróbico de baixo impacto (caminhada, hidroginástica, bicicleta), combinado com exercício de resistência, 3 a 5 vezes por semana. A recomendação é começar em intensidade baixa, aumentar devagar, e persistir. Nas primeiras 4-6 semanas, a dor pode piorar antes de melhorar. Quase todo paciente que desiste, desiste nessa janela. Educação sobre a doença.Entender o que é sensibilização central muda a forma como o paciente se relaciona com a dor. Menos medo, mais controle, menos ativação do sistema de alarme. Medicação.Antidepressivos (duloxetina, amitriptilina em baixa dose) e neuromoduladores (pregabalina, gabapentina) têm evidência para redução de dor. Não são “antidepressivos porque é depressão” — são moduladores do processamento central de dor. O paciente precisa saber disso para não abandonar a medicação pensando “eu não estou deprimido, não preciso disso”. Opioide não entra no tratamento padrão. Anti-inflamatório não-esteroidal também não, porque não há inflamação a combater. Sono.Higiene do sono, tratamento de apneia obstrutiva se presente, rotina regular. Sono ruim é combustível da fibromialgia — se o sono não entra no tratamento, nada melhora de verdade. Terapia cognitivo-comportamental (TCC).Tem evidência sólida. Ajuda paciente a reprocessar catastrofização da dor, recuperar função, retomar atividades. O que esperar do tratamento Expectativa realista: controle de sintomas, não cura. Muitos pacientes chegam a um patamar em que fazem vida normal, trabalham, se exercitam, e lidam com crises ocasionais sem que a doença os domine. Alguns ficam praticamente sem sintomas por longos períodos. Cura completa e permanente não é o objetivo — controle sustentado é. O acompanhamento é mais intenso nos primeiros 3 a 6 meses (ajuste fino de medicação e de rotina). Depois, consultas a cada 3-6 meses, ou quando houver crise. {CTA: agendar-consulta-fibromialgia} Leituras complementares: {link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}, {link-interno: reumatismo}.

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Osteoporose não dói — e é exatamente por isso que preocupa

{imagem: densitometria óssea sendo realizada em paciente idosa; alt-text “Exame de densitometria óssea para diagnóstico de osteoporose”} Muita gente ainda associa dor nas costas, dor nos ossos ou dor no joelho à osteoporose. “Dói tudo, deve ser a osteoporose.” Não é. A osteoporose não dói — e essa é a característica que mais atrasa diagnóstico e tratamento. O que dói é a fratura que a osteoporose deixa acontecer. E quando a dor aparece, a doença já evoluiu há anos em silêncio. O que é osteoporose Osteoporose é a perda progressiva de massa óssea e da arquitetura interna do osso. O osso fica mais poroso, menos resistente, e passa a quebrar com trauma que antes não quebraria — até mesmo queda da própria altura, levantar peso moderado, tossir forte em pessoa mais vulnerável. A osteopenia é a forma mais leve do mesmo espectro. Não é uma “pré-doença inofensiva” — boa parte das fraturas por fragilidade acontece em pacientes classificados como osteopênicos, porque a classificação é feita por um exame (densitometria) que mede densidade mineral, mas não mede a qualidade da proteína óssea. Números que importam Fratura vertebral silenciosa: o caso mais traiçoeiro A fratura por compressão vertebral é o sintoma clássico de osteoporose que ninguém atribui à osteoporose. Acontece durante um esforço banal (levantar uma mala, puxar a porta do carro, tossir), causa dor nas costas que melhora em dias ou semanas, e o paciente nunca faz um raio-X. Anos depois, aparece a hipercifose (aquela “corcunda” torácica progressiva), a perda de altura de 3-4 cm, a dificuldade de respirar bem porque o tórax encurtou. Tudo isso podia ter sido interrompido com uma densitometria e um tratamento iniciado cedo. Paciente que perdeu mais de 2 cm de altura em poucos anos, ou que teve dor nas costas súbita depois de um esforço banal, merece radiografia de coluna torácica e lombar. Quebrei um osso — é osteoporose? Depende da energia do trauma. Fratura em acidente automobilístico ou queda de altura não entra no conceito de “fratura por fragilidade” — nesses casos, qualquer osso quebraria. Já fratura por queda da própria altura, queda de baixa altura (subir no banquinho e cair), ou esforço trivial é fratura por fragilidade e é critério diagnóstico de osteoporose — independentemente de densitometria. O reumatologista vai confirmar o diagnóstico e investigar se há causa secundária envolvida (hiperparatireoidismo, deficiência severa de vitamina D, uso crônico de corticoide, hipogonadismo, doença celíaca silenciosa, entre outras). Diagnóstico Densitometria óssea (DEXA) é o exame de referência. Mede densidade mineral em coluna lombar, fêmur e, quando indicado, rádio distal. O resultado é dado em T-score: Mas o T-score sozinho não decide o tratamento. Hoje usamos a calculadora FRAX (Fracture Risk Assessment Tool), que combina idade, sexo, peso, altura, história de fratura prévia, história familiar, tabagismo, uso de corticoide, e outros fatores de risco para estimar o risco em 10 anos de fratura osteoporótica maior e de fratura de quadril. É por isso que dois pacientes com o mesmo T-score recebem condutas diferentes — porque o risco clínico, e não só o número isolado, é o que orienta a decisão. Tratamento Medicamentos.Existem duas grandes categorias: A escolha entre uma classe e outra, e a sequência do tratamento, depende da gravidade, da idade, do risco de fratura, da função renal e da resposta individual. Não existe “um remédio que serve para todos” nem “o mais novo é sempre melhor”. Nutrição.Meta de cálcio dietético de 1000 a 1200 mg/dia (laticínios, tofu, sardinha com espinha, vegetais de folha escura). Suplementar só quando a dieta não atinge — o excesso de cálcio tem sua própria lista de problemas. Vitamina D em nível adequado (em geral, acima de 30 ng/mL em paciente em tratamento ativo). Brasileiros têm deficiência mais comum do que se imagina, a despeito do sol. Proteína.Frequentemente negligenciada. Idoso come pouca proteína, perde músculo, cai, quebra. Meta de 1,0 a 1,2 g/kg/dia em idoso, distribuída ao longo do dia. Exercício.{link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}. Exercício com carga, resistência e impacto (quando possível) estimula o osso. Caminhada sozinha ajuda menos do que musculação ou treino de força. Equilíbrio e propriocepção (tai chi, pilates clínico) reduzem risco de queda. Ambiente seguro.Tapete preso no chão, iluminação noturna no trajeto do quarto ao banheiro, barras de apoio no banho, revisão de medicamentos que causam tontura. Metade do tratamento é evitar a queda. Quem deve fazer densitometria {CTA: agendar-avaliacao-osteoporose} Antes da primeira fratura Osteoporose é silenciosa, diagnosticável por exame acessível, tratável com medicamentos eficazes. Só vira sofrimento quando é ignorada tempo demais. A consulta antes da primeira fratura é a melhor que um reumatologista consegue oferecer. {CTA: agendar-consulta} Leituras relacionadas: {link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}, {link-interno: reumatismo}.

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O que é reumatismo? Um guia para saber quando procurar o reumatologista

{imagem: par de mãos idosas sobrepostas, uma delas com leve deformidade articular; alt-text “Mãos com sinais de doença reumatológica”} “Reumatismo” é uma doença? Não. “Reumatismo” é um termo popular para se referir a mais de 100 doenças diferentes que caem sob o guarda-chuva da Reumatologia. Algumas atacam só articulações. Outras afetam o corpo inteiro — pele, rim, pulmão, coração. Algumas aparecem depois dos 60 anos. Outras começam na adolescência. Quando sua avó dizia “minha artrose atacou” e sua tia dizia “peguei um reumatismo no joelho”, elas estavam conversando sobre coisas possivelmente muito diferentes — e o trabalho do reumatologista é destrinchar isso. As categorias que importam Em vez de listar 100 doenças, vale conhecer os grupos. A conduta muda por grupo. Doenças degenerativas.A cartilagem, o tendão ou o disco vertebral perde função pelo uso e pelo tempo. A mais comum é a {link-interno: artrose} (também chamada de osteoartrite ou osteoartrose). Tendinopatias crônicas e doença degenerativa do disco entram aqui. Doenças inflamatórias e autoimunes.O sistema imune erra o alvo e ataca o próprio corpo. A {link-interno: artrite-reumatoide} é o exemplo clássico — o sistema imune destrói articulação. Lúpus, espondilite anquilosante, artrite psoriásica, vasculites, esclerose sistêmica, síndrome de Sjögren. São doenças crônicas, muitas vezes sistêmicas, e o diagnóstico precoce muda o prognóstico drasticamente. Doenças por deposição de cristal.Gota (ácido úrico) e pseudogota (pirofosfato de cálcio). Crise aguda, articulação muito inflamada, melhora com tratamento. Síndromes de dor crônica.A {link-interno: fibromialgia} é o principal exemplo. Não há inflamação visível nem destruição articular, mas a dor é real e o sofrimento, significativo. Mecanismo é de sensibilização do sistema nervoso. Doenças metabólicas ósseas.A {link-interno: osteoporose-nao-doi} é a principal — perda de massa óssea com risco aumentado de fratura. Doenças infecciosas articulares.Artrite séptica bacteriana, artrite viral (chikungunya, por exemplo). Exigem diagnóstico rápido. Sinais que merecem avaliação Nem toda dor articular precisa do reumatologista. Mas alguns padrões deveriam acender luz amarela: Se qualquer desses persiste, vale a avaliação. Diagnóstico reumatológico, em muitos casos, é corrida contra o tempo — quanto antes o tratamento começa, menor o dano estrutural. {CTA: agendar-avaliacao-reumatologica} Exames “do reumato” — e os mitos comuns Nenhum exame isolado fecha diagnóstico de doença reumática. Fator reumatoide positivo não significa que você tem artrite reumatoide (pode estar positivo em gente saudável, em infecção, em outras doenças). FAN positivo em título baixo é comum na população e não fecha lúpus. VHS alta é inespecífica. Esses exames são peças de um quebra-cabeça que o reumatologista monta com a história e o exame físico. Cuidado com laboratório de saúde suplementar pedindo “painel reumatológico completo” por conta própria. Dá prejuízo e susto. Como é o tratamento Depende da doença. Generalizar aqui seria preguiça editorial — o paciente de fibromialgia precisa de coisas opostas ao paciente de gota aguda. Cada artigo específico do blog entra no tratamento da doença que trata. O que posso dizer em comum é que tratamento moderno em reumatologia não é só remédio. Exercício físico estruturado, controle de peso, cessação de tabagismo, higiene do sono, acompanhamento regular — todos têm evidência. A parte farmacológica evoluiu muito nas últimas duas décadas, especialmente com biológicos e inibidores de JAK para doenças autoimunes, mas nenhum deles funciona bem isolado das medidas não-farmacológicas. Quando marcar Se algum dos sinais listados acima bate com você, ou se você já tem diagnóstico e precisa de acompanhamento, é hora de marcar. {CTA: agendar-consulta} Próximas leituras úteis: {link-interno: artrose}, {link-interno: artrite-reumatoide}, {link-interno: fibromialgia}, {link-interno: osteoporose-nao-doi}, {link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}.

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