Osteoporose não dói — e é exatamente por isso que preocupa

{imagem: densitometria óssea sendo realizada em paciente idosa; alt-text “Exame de densitometria óssea para diagnóstico de osteoporose”}

Muita gente ainda associa dor nas costas, dor nos ossos ou dor no joelho à osteoporose. “Dói tudo, deve ser a osteoporose.” Não é. A osteoporose não dói — e essa é a característica que mais atrasa diagnóstico e tratamento.

O que dói é a fratura que a osteoporose deixa acontecer. E quando a dor aparece, a doença já evoluiu há anos em silêncio.

O que é osteoporose

Osteoporose é a perda progressiva de massa óssea e da arquitetura interna do osso. O osso fica mais poroso, menos resistente, e passa a quebrar com trauma que antes não quebraria — até mesmo queda da própria altura, levantar peso moderado, tossir forte em pessoa mais vulnerável.

A osteopenia é a forma mais leve do mesmo espectro. Não é uma “pré-doença inofensiva” — boa parte das fraturas por fragilidade acontece em pacientes classificados como osteopênicos, porque a classificação é feita por um exame (densitometria) que mede densidade mineral, mas não mede a qualidade da proteína óssea.

Números que importam

  • Uma em cada três mulheres com mais de 50 anos sofrerá fratura por osteoporose durante a vida.
  • Um em cada cinco homens acima de 50 anos também.
  • Fratura de quadril em idoso tem mortalidade em 1 ano próxima de 20%. É um evento grave, não um acidente qualquer.
  • Fratura vertebral frequentemente passa despercebida — o paciente perde altura, vai ficando “curvado”, atribui à idade, e não relaciona à doença.

Fratura vertebral silenciosa: o caso mais traiçoeiro

A fratura por compressão vertebral é o sintoma clássico de osteoporose que ninguém atribui à osteoporose. Acontece durante um esforço banal (levantar uma mala, puxar a porta do carro, tossir), causa dor nas costas que melhora em dias ou semanas, e o paciente nunca faz um raio-X.

Anos depois, aparece a hipercifose (aquela “corcunda” torácica progressiva), a perda de altura de 3-4 cm, a dificuldade de respirar bem porque o tórax encurtou. Tudo isso podia ter sido interrompido com uma densitometria e um tratamento iniciado cedo.

Paciente que perdeu mais de 2 cm de altura em poucos anos, ou que teve dor nas costas súbita depois de um esforço banal, merece radiografia de coluna torácica e lombar.

Quebrei um osso — é osteoporose?

Depende da energia do trauma.

Fratura em acidente automobilístico ou queda de altura não entra no conceito de “fratura por fragilidade” — nesses casos, qualquer osso quebraria. Já fratura por queda da própria altura, queda de baixa altura (subir no banquinho e cair), ou esforço trivial é fratura por fragilidade e é critério diagnóstico de osteoporose — independentemente de densitometria.

O reumatologista vai confirmar o diagnóstico e investigar se há causa secundária envolvida (hiperparatireoidismo, deficiência severa de vitamina D, uso crônico de corticoide, hipogonadismo, doença celíaca silenciosa, entre outras).

Diagnóstico

Densitometria óssea (DEXA) é o exame de referência. Mede densidade mineral em coluna lombar, fêmur e, quando indicado, rádio distal. O resultado é dado em T-score:

  • T-score ≥ -1,0: normal.
  • T-score entre -1,0 e -2,5: osteopenia.
  • T-score ≤ -2,5: osteoporose.

Mas o T-score sozinho não decide o tratamento. Hoje usamos a calculadora FRAX (Fracture Risk Assessment Tool), que combina idade, sexo, peso, altura, história de fratura prévia, história familiar, tabagismo, uso de corticoide, e outros fatores de risco para estimar o risco em 10 anos de fratura osteoporótica maior e de fratura de quadril.

É por isso que dois pacientes com o mesmo T-score recebem condutas diferentes — porque o risco clínico, e não só o número isolado, é o que orienta a decisão.

Tratamento

Medicamentos.
Existem duas grandes categorias:

  • Antirreabsortivos (bloqueiam a destruição óssea): bifosfonatos orais (alendronato, risedronato) ou venosos (ácido zoledrônico), denosumabe (subcutâneo a cada 6 meses).
  • Anabolizantes (estimulam formação de osso): teriparatida (diária, subcutânea), romosozumabe (mensal, subcutâneo).

A escolha entre uma classe e outra, e a sequência do tratamento, depende da gravidade, da idade, do risco de fratura, da função renal e da resposta individual. Não existe “um remédio que serve para todos” nem “o mais novo é sempre melhor”.

Nutrição.
Meta de cálcio dietético de 1000 a 1200 mg/dia (laticínios, tofu, sardinha com espinha, vegetais de folha escura). Suplementar só quando a dieta não atinge — o excesso de cálcio tem sua própria lista de problemas.

Vitamina D em nível adequado (em geral, acima de 30 ng/mL em paciente em tratamento ativo). Brasileiros têm deficiência mais comum do que se imagina, a despeito do sol.

Proteína.
Frequentemente negligenciada. Idoso come pouca proteína, perde músculo, cai, quebra. Meta de 1,0 a 1,2 g/kg/dia em idoso, distribuída ao longo do dia.

Exercício.
{link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}. Exercício com carga, resistência e impacto (quando possível) estimula o osso. Caminhada sozinha ajuda menos do que musculação ou treino de força. Equilíbrio e propriocepção (tai chi, pilates clínico) reduzem risco de queda.

Ambiente seguro.
Tapete preso no chão, iluminação noturna no trajeto do quarto ao banheiro, barras de apoio no banho, revisão de medicamentos que causam tontura. Metade do tratamento é evitar a queda.

Quem deve fazer densitometria

  • Mulher a partir da menopausa com fatores de risco, ou aos 65 anos mesmo sem fatores.
  • Homem a partir dos 70 anos, ou antes se tiver fator de risco (uso prolongado de corticoide, hipogonadismo, tabagismo importante).
  • Qualquer adulto com fratura por fragilidade, com doença que cause perda óssea secundária, ou em uso crônico de corticoide.

{CTA: agendar-avaliacao-osteoporose}

Antes da primeira fratura

Osteoporose é silenciosa, diagnosticável por exame acessível, tratável com medicamentos eficazes. Só vira sofrimento quando é ignorada tempo demais. A consulta antes da primeira fratura é a melhor que um reumatologista consegue oferecer.

{CTA: agendar-consulta}


Leituras relacionadas: {link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}, {link-interno: reumatismo}.

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