Artrose é o mesmo que artrite?

{imagem: radiografia de joelho com sinais de osteoartrite e mão apontando para o espaço articular reduzido; alt-text “Radiografia de joelho com sinais de artrose”}

Um paciente chegou outro dia falando “doutor, comecei com artrite no joelho”. Fui examinar e o joelho não tinha sinal inflamatório nenhum. Tinha desgaste de cartilagem, dor aos movimentos, crepitação — tinha artrose. É o erro mais comum de nomenclatura no consultório.

Artrite e artrose não são a mesma doença. Parecem palavras parecidas e se confundem no uso popular, mas cada uma descreve um processo biológico diferente, com causa diferente, curso diferente e tratamento diferente.

A diferença em uma frase

  • Artrite é inflamação da articulação. O sistema imune está ativo, a articulação incha, esquenta, fica rígida pela manhã, pode deformar com o tempo se não tratada. Exemplos: {link-interno: artrite-reumatoide}, artrite psoriásica, espondilite anquilosante, lúpus articular, gota, chikungunya.
  • Artrose (também chamada de osteoartrite ou osteoartrose — três nomes para a mesma doença) é desgaste degenerativo da cartilagem articular. Não é causada por ataque imune. Piora com o uso ao longo dos anos, afeta mais idoso, e tem padrão clínico muito diferente da artrite.

As duas podem coexistir no mesmo paciente. E a artrite não tratada pode evoluir para artrose secundária — mais um motivo para diagnosticar doença inflamatória cedo.

O que é artrose

A artrose é a doença articular mais comum do mundo. Caracteriza-se pela perda progressiva da cartilagem articular — o tecido liso que reveste a ponta dos ossos dentro da articulação. Sem esse amortecimento, osso raspa em osso, a articulação perde mobilidade, dói.

É mais frequente depois dos 50 anos, mas não é doença “só de idoso”. Em torno dos 75 anos, a maioria das pessoas tem algum sinal de artrose em exame de imagem (estudos brasileiros, na linha do que mostra a coorte internacional do Framingham, apontam algo próximo de 85% de alterações radiológicas nessa faixa etária). Nem todos têm sintoma.

Por que aparece

  • Envelhecimento natural da cartilagem.
  • Genética. Pai, mãe ou irmão com artrose = risco aumentado, especialmente na artrose de mão e de joelho.
  • Sobrecarga mecânica. Excesso de peso é o fator modificável mais relevante — cada quilo extra é amplificado no joelho durante a marcha.
  • Trauma articular prévio. Atleta que rompeu ligamento cruzado no joelho aos 20 anos tem chance alta de artrose no mesmo joelho aos 50.
  • Doença reumatológica inflamatória não tratada. Artrite reumatoide que destruiu cartilagem deixa sequela de artrose.
  • Doenças metabólicas. Hemocromatose, gota crônica, displasias articulares.

Sintomas típicos

  • Dor que piora com uso e melhora com repouso. Oposto da artrite, que costuma doer mais ao acordar.
  • Rigidez matinal curta. Paciente se mexe, e em poucos minutos (menos de 30) a rigidez passa.
  • Crepitação (estalo, rangido) no movimento da articulação.
  • Redução progressiva da amplitude de movimento.
  • Sem inchaço inflamatório significativo. Pode haver leve derrame, mas não o inchaço típico da artrite.
  • Articulações mais afetadas: joelho, quadril, coluna lombar e cervical, pequenas articulações das mãos (interfalângicas distais) e base do polegar.

Diagnóstico

Na maioria dos casos, é clínico + radiográfico.

  • História e exame físico são a peça central.
  • Radiografia simples da articulação afetada é o exame de imagem padrão. Mostra redução do espaço articular, osteófitos (“bicos de papagaio”), esclerose subcondral. Não precisa de tomografia nem ressonância na grande maioria dos casos — esses exames ficam reservados para avaliação pré-cirúrgica, dúvida diagnóstica ou suspeita de lesão associada.
  • Exame de sangue é pedido para afastar outras causas (artrite reumatoide, gota, pseudogota), não para “confirmar artrose”.

Tratamento: o que depende de você e o que depende do médico

O tratamento moderno segue as diretrizes OARSI e ACR atualizadas em 2019, com pilares bem estabelecidos.

O que depende do paciente

Exercício físico regular.
É a intervenção com melhor evidência — superior a qualquer medicamento isolado. A combinação recomendada é exercício aeróbico de baixo impacto (caminhada, bicicleta, hidroginástica) com treino de resistência (musculação adaptada, elástico, peso do corpo). Frequência: 3 a 5 vezes por semana. {link-interno: exercicio-fisico-e-doencas-reumaticas}.

Perda de peso quando há sobrepeso.
O número que muda o curso clínico é redução de ao menos 5% do peso corporal. Em artrose de joelho, perda de 10% do peso tem efeito comparável ao de um medicamento.

Fortalecer musculatura ao redor da articulação.
Quadríceps forte protege o joelho. Core forte protege a coluna. Fisioterapia orientada é parte do tratamento, não “extra”.

Adaptar a rotina.
Sapato adequado, uso de palmilha quando indicado, bengala do lado oposto ao joelho acometido (o “erro clássico” é usar do mesmo lado). Acessórios não são fraqueza — são ferramenta de tratamento.

O que depende do médico

Analgésicos e anti-inflamatórios (AINE), quando indicados:

  • AINE tópico (diclofenaco gel ou similar) é primeira linha em artrose de joelho e de mão pelas diretrizes atuais. Alta eficácia local, baixa absorção sistêmica, poucos efeitos adversos.
  • AINE oral em curso curto para controle de dor, respeitando contraindicações (hipertensão mal controlada, doença renal, risco cardiovascular).
  • Paracetamol tem papel reduzido nas diretrizes mais recentes, mas ainda cabe em paciente específico.
  • Duloxetina pode ser útil em artrose com componente de dor crônica neuropática.
  • Opioide fraco em casos muito selecionados e por período limitado. Nunca como solução de longo prazo.

Infiltração intra-articular.
Corticoide em infiltração é opção em crise dolorosa, com efeito por semanas a meses. Ácido hialurônico tem evidência mais modesta e varia por articulação.

Cirurgia.
Artroplastia (prótese) é a solução definitiva para artrose avançada de joelho ou quadril em paciente com dor refratária e perda importante de função. Indicação é tomada em conjunto com o ortopedista.

O que não funciona (e que é muito vendido)

  • Suplemento isolado com colágeno, condroitina ou glucosamina — evidência fraca e inconsistente. Alguns pacientes relatam benefício, mas o custo-benefício na maioria não justifica.
  • Ozonioterapia intra-articular — evidência insuficiente, fora das diretrizes.
  • Células-tronco para artrose — ainda no campo experimental. Quem oferece como tratamento consolidado está adiantando uma conversa que a ciência não terminou.
  • Dieta “anti-inflamatória” milagrosa — peso adequado ajuda, mas não há dieta específica para artrose. O que ajuda é a perda de peso em quem precisa emagrecer.

Quando procurar avaliação

Dor articular que dura mais de 6 semanas, rigidez, crepitação, ou perda de amplitude de movimento merecem avaliação. Em artrose, o tratamento começado cedo preserva função por muito mais tempo.

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